Internet, temos mesmo que falar

Internet, quando te conheci soube que a minha vida ia mudar.

No dia em que entraste na minha casa, todas as possibilidades do mundo se abriram para mim. Prometeste-me tudo: todas as coisas existentes no mundo e também as que não passavam de ideias, sonhos e projetos abstratos.

Colocaste o mundo nas minhas mãos e todos os sonhos na minha mente. E realizaste muitos. E fizeste-me muito feliz.

Ofereceste-me, generosamente, muitas das coisas que mais valorizo no mundo: conhecimento, boa música, boas pessoas, cinema, arte, possibilidade de comunicar com quem quisesse, deste-me a possibilidade de mostrar o que faço, deste-me todas as oportunidades do mundo. Até me ensinaste a cozinhar.

E fizeste-o sem te importar com quem eu era, de onde vinha, com o meu dinheiro ou com as minhas convicções políticas, religiosas ou sociais.

Bom… a minha popularidade influenciava um pouco a nossa relação mas não muito. Nada que fizesse mossa na nossa amizade.

Isto tem durado há anos e anos. E temos sido felizes. Muito felizes.

Crescemos juntas, passámos por bons e maus momentos juntas e ajudaste-me em todos esses momentos. Mais do que isso, fizeste a diferença, para melhor, em muitos deles.

Mas já não sinto o mesmo em relação a ti. Estou a precisar de um tempo. Estou a precisar de um espaço.

O teu problema é que és muito… como é que hei-de dizer? És um bocadinho chata, melga, lapa. Estás sempre presente e impões-te. Estás sempre a chamar a atenção e a chegar com novidades, conversas, notificações, pop-ups, sininhos, luzinhas, alertazinhos, recadinhos, sugestõezinhas, aplicaçõezinhas.

Não leves a mal, percebo que as tuas intenções são facilitar-me a vida, entreter-me e manter-me feliz e com a mente ocupada.

A questão é que ando ocupada demais. Tenho saudades de não ter nada para fazer, nada em que pensar, nada para ler, ou escrever, ou responder. Tenho saudades de não ter sempre a sensação de que posso estar a perder alguma coisa.

O teu problema, Internet, é que és interessante demais, bonita demais, intensa demais.

Acho que gosto de coisas mais simples.

Gosto de contemplar o mar, de brincar com bolas de papel, a rebolar pelo chão, com as minhas filhas.

Gosto de conversar com os meus amigos e o meu marido sem ter que estar constantemente a olhar para ti, a ouvir-te, a pensar em ti e no momento que que terei que te dar atenção outra vez. A nossa relação está saturada.

Não te vou abandonar de vez, não conseguiria uma separação assim tão radical, mas vou ver-te menos vezes, muito menos. Vais ter uma importância reduzida na minha vida.

Vou perder muitas novidades, eu sei. Sei que me ias ajudar a decorar a casa de uma maneira magnífica, que me ias mostrar as melhores séries e filmes do mês e as últimas novidades em música independente polaca.

Ainda por cima ias dar-me dicas preciosas para lidar com as birras da mais velha que estão a esfrangalhar-me os nervos. Acho que até esses conselhos vou dispensar. Acho que se trocar o tempo que te dedico por uma ou duas boas horas de sono vou conseguir resolver as questões da miúda sozinha.

Desculpa a minha arrogância e insensibilidade, Internet, mas a partir de agora vou passar a usar-te a tratar-te mais friamente, com um maior distanciamento e não te vou deixar ocupar o meu tempo muitas vezes. Vais sentir-te mais ou menos como o objeto que és.

Vais ver que as coisas vão correr muito melhor para nós.

Nova Na Cidade

Ser sempre nova na cidade e a cidade ser nova para mim podia ser um estado de espírito. O que me define. G
osto de mudança, de novidade, de frescura.
A minha casa é a minha família. Todas as outras coisas podem ir mudando regularmente.

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